Game of Thrones

Semana passada tivemos o final da sexta temporada de Game of Thrones que está sendo considerada por muitos fãs e críticos não apenas a melhor temporada até então, mas a coisa mais incrível que já assistiram na televisão.

Embora concorde que tenha sido uma temporada incrível, quando começamos a cair para perto das hipérboles, o senso crítico começa a latejar.

Cinematograficamente falando, não há muito como discordar. Temos efeitos especiais, sequências e atuações dignas de cinema de alta qualidade. Nesse ponto o slogan da HBO está bem correto.

Infelizmente, a sensação que a sexta temporada deixou é que para ganharmos todas essas qualidades, tivemos que sacrificar o roteiro. Seja o fato de não termos mais os livros em diversas parte para dirigir a trama ou estarmos caminhando para o fechamento da história, exigindo que as pontas e arcos fechem, todo diferencial que havia nas temporadas anteriores se perdeu para cenas legais por serem legais, quebrando o potencial e crescimento de muitos personagens. Especificamente:

HOLD THE DOOR

Hodor segurando a porta

Hodor era um personagem cheio de mistérios e teorias envolvendo sua deficiência mental. O que havia acontecido com ele? Por que ele era o único humano que Bran Stark conseguia habitar a mente? Muitas teorias interessantes surgiram como a dele ter sangue de gigante ou ser um troca-peles que passou muito tempo no corpo de um cavalo. Nada disso.

Embora sua cena seja emocionante e apresente viagem no tempo no mundo de Gelo e Fogo, mesmo que siga a teoria de que a história nunca pode ser mudada, a forma com que foi executada desvaloriza bastante os dois personagens envolvidos.

Começando pela forma com que Bran é descoberto pelo Rei da Noite. Assim como Pippin mexendo no Palantír escondido de Gandalf, Bran resolve, sem a supervisão do Corvo de Três Olhos, ter uma visão. E assim como Frodo usando O Um Anel é encontrado pelos Nazgûl, o Rei da Noite marca Bran e agora sabe onde encontra-lo. Ao invés de fugirem, Stark e o Corvo entram na Matrix mais uma vez, aparentemente para concluir o treinamento de Bran. Isso não é claro, pois ambos ficam calados enquanto o caos toma conta do lugar.
A consequência disso é a morte de praticamente todos os personagens do núcleo: Summer, o Corvo, Leaf e Hodor. Nenhuma das mortes para o ataque dos White Walkers. O sacrifício de Leaf, explodindo tudo em sua volta foi em vão e o esforço de Hodor de segurar a porta para Bran e Meera fugirem também não é suficiente para fugir. Mesmo que a vida de Wyllis tenha sido marcada e basicamente destruída, tornando-o um deficiente mental, só para que conseguissem fugir, foi em vão, pois quem realmente os salva é Benjen Stark.

Uma forma que provavelmente seria melhor de mostrar essa sequência é tirar a responsabilidade ativa de Bran. Embora ele seja o culpado pelos diversos acontecimentos, a inevitabilidade é um fardo muito maior que a irresponsabilidade.
Trate o Rei da Noite nas visões como os Agentes de Matrix. O perigo sempre está lá, talvez por isso eles treinam lentamente, entrando e saindo das visões. Isso explicaria os White Walkers encontrando-os e, uma vez que esses estão chegando, Bran e o Corvo ficarem o maior tempo possível dentro da visão para finalizar o treinamento.
Depois disso, mate Leaf e Summer sem nenhum ato heróico, se não faz diferença substancial, só servem para desvalorizar os outros.
Hodor é o foco do sacrifício, temos que ter uma mudança do cenário além de contar sua história e mostrar como viagem no tempo funciona no universo de Guerra dos Tronos. A solução é simples: Tio Benjen aparece assim que saem da caverna e o real motivo de conseguirem fugir não é o cavalo ágil de Benjen, mas o fato de Hodor estar segurando a porta.

Uma garota chamada Arya Stark

Uma garota chamada Arya Stark cega

O arco de Arya na quinta e sexta temporada da série se passa em Braavos e mostra seu treino para se tornar “Ninguém”. Muitos acharam um pouco chato e enrolado, mas é um universo bem confuso que poderia ter perdido muito se apressado.
O grande problema é no final, quando Arya decide abandonar a identidade anônima e voltar a ser ela mesma. Temos uma preparação enorme, com ela salvando a vida de sua vítima e recuperando e escondendo sua espada consigo. A próxima vez que a vimos, ela está andando desarmada sem nenhum objetivo. Assim como Bran, quando se colocou na situação de emergência, não fugiu, apenas seguiu em uma ação neutra sem objetivo claro.
Diferente de toda habilidade de roteiro mostrada por Martin até então, Arya é atacada por sua assassina rival, de uma forma tão sutil quanto as estátuas de Braavos. Num universo onde o grande Areo Hotah, capitão dos guardas de Dorne, morre com uma facada, Arya sobrevive a três de Waif. Depois disso temos mais um período de passagem de tempo onde ela está sendo cuidada pela atriz que salvou anteriormente, mas suas feridas são basicamente ignoradas na cena de ação seguinte que é uma mistura bizarra entre Exterminador do Futuro 2 e Assassin’s Creed.
A confusão foi tanta que mesmo com o final da temporada, existem diversas teorias de que Arya não é Arya ou de que Waif nunca existiu. Se todas essas passagens de tempo nebulosas e atitudes confusas tivessem sido evitadas, o arco teria finalizado de forma mais limpa e satisfatória.

Tyene Sand mata Areo Hotah

Estavam todos mortos

jon-snow-returns

Outras duas coisas apresentadas sem propósito e parecem que continuarão sem, foram a morte e renascimento de Jon Snow e a aparência idosa de Melissandre.
Pode-se inferir que Jon não estava pronto para morrer, isso é levemente reforçado sem seu diálogo com Melissandre quando ele pede para não ser revivido caso morra em batalha e por ele não ter morrido do caos da luta sendo repetidamente salvo por pura sorte.
Já Melissandre, pode-se dizer que após ter perdido quem ela pensava ser o escolhido, estava fraca, perdendo seus poderes.
Ambas ideias são super plausíveis, porém tão fortes quanto muitas teorias de fãs. Entram como mais 2 pontos inconclusivos e nebulosos para a temporada, cujo objetivos não parecem passar de gerar furor entre os fãs especuladores. Vimos Lost, não caímos mais nessa.

A Batalha dos Bastardos, o baixo orçamento e a inabilidade de Jon Snow de comandar uma guerra

Jon Snow enfrentando o exercito de Ramsey

Agora vamos inverter a crítica. Embora a batalha do penúltimo episódio tenha sido uma obra de arte televisiva, muitos criticaram como Jon foi estúpido, sem estratégia, como o gigante foi inútil e como Sansa não avisou que havia um exército a disposição.

Começando pelo gigante. Independente da limitação orçamentária, Wun Wun é um selvagem. Assim como Tormund, a habilidade mostrada pelo exército dos Bolton deixa seus métodos de combate inúteis. Diversas vezes é mostrado ele tentando destruir a parede de escudos, mas devido o posicionamento e lanças, o máximo que ele consegue é matar um inimigo de cada vez — o que é muito melhor que todo o exército está conseguindo. Wun Wun e os selvagens não foram apenas dominados, foram domados.

E de quem é a culpa? Jon Snow. Em Game of Thrones, os personagens teimosos que mantém seus ideais costumam ser castigados com sua morte, morte de seus parentes ou os dois. Exceto por Jon Snow. Ele mesmo que tendo seu personagem desenvolvido, passou por diversas situações que George R. jamais perdoaria se fosse outro qualquer. Até quando Jon morre, ele volta.
E isso justifica a atitude negligente com seu exército e vida para tentar salvar, sozinho, seu irmão. Não importa que Sansa tenha avisado que Ramsey ia fazer isso, Jon nunca o enfrentou, só o conhecia de histórias. Sua forma de agir foi perfeitamente condizente com seu personagem.

Falando em Sansa, por que ela não avisou dos soldados do Vale? Porque ela conhece Ramsey. Se aguardassem a chegada deles, não teria elemento surpresa para os Bolton. Ramsey aguardou a última tropa de Jon, comandanda por Ser Davos, entrar em batalha para usar a estratégia da parede de escudos. Sansa pode não ser uma estrategista de guerra, mas sabia que era preciso um elemento surpresa.

Daenerys Nascida da Tormenta, A Não Queimada, Mãe dos Dragões, Quebradora de Correntes, Rainha dos Ândalos, dos Rhoinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi, Rainha de Meereen, da Casa Targaryen, primeira de seu nome

Alguns leitores dos livros diziam que tudo indicava que Dany fosse se tornar a vilã da série, afinal, ela é o Fogo das Crônicas. Essa teoria vem das atitudes agressivas mostradas por ela e pela semelhança e lembrança constantes com seu pai, o Rei Louco.
Porém, a temporada 6 deu ao núcleo dela, mais do que nunca, um poder feminino enorme. Todas as casas que a apoiam são lideradas por mulheres e todos seus homens são incompletos — eunucos, castrados, fora de seu domínio natural (no caso dos Dothraki, inúteis no mar) ou simplesmente não tendo altura suficiente. Já os homens completos, foram deixados em Meereen.
Seria um tiro no pé, principalmente nos dias de hoje, tornar esse grupo inimigo. George R. R. Martin é velho, mas a força e quantidade de personagem feminino que coloca em suas histórias são conflitantes com essa teoria.
Mas vale lembrar que, embora Dany esteja com uma bela tropa, seu próximo combate é com Euron, em alto mar e com mais barcos que ela. Será mais uma vez que a veremos perdendo bastante força, mas o mais provável é que ela se erguerá com mais um título.

Dany, Tyrion e Missandei no barco

“O melhor modo de vingar-se de um inimigo, é não se assemelhar a ele.”

Sophie Turner sentada no Trono de Ferro

Falando em mulheres do mal, as damas da família Stark tiveram seus arcos revirados completamente. Vieram da família dos “heróis” e foram traumatizadas com a morte de praticamente todos seus parentes. Arya está completamente treinada para saciar a sua sede de vingança, pronta para não apenas riscar mais nomes de sua lista, mas todas as pessoas diretamente relacionadas. Sansa sorriu ao ter Ramsey devorado cruelmente por seus próprios cachorros, quando o mesmo avisou que ele era parte dela agora, não estava referindo-se a um filho, mas a esse sorriso. Sansa e Arya — e Catelyn, se considerarmos os livros — tornaram-se o que odiavam.
Enquanto os seus inimigos são os mesmos que os nossos, a vingança é motivo de celebração na série, mas uma hora teremos conflito. Começando pela Sansa tendo que lidar com sua casa Stark sendo comandada pelo seu irmão bastardo.

O Dragão de Três Cabeças

Escudo da familia Targaryen, o dragão de 3 cabeças

A grande teoria que cada vez está mais próxima de se concretizar é a de que Jon e Tyrion sejam Targaryen. Por algum motivo, muitos fãs começaram a abandonar o segundo da teoria, mas diferente da morte de Jon Snow e velhice de Melissandre, a relação de Tyrion com dragões é repetida e reforçada sempre.
Com relação ao Snow, surgem teorias de que ele não é Targaryen e por isso não foi revelado no último episódio. No caso, o mais provável é que ele realmente seja, pois não há motivo para mostrar um segredo não revelado se for para não ter. A razão de não focarem no pai, é para fazer o contraponto de que Jon tem o Sangue de Ned Stark correndo em suas veias, cena que finaliza o arco dos Stark na temporada.

Conclusão

Preparem-se para uma temporada (ou meia temporada, caso considerem como última) um pouco enrolada em relação ao Gelo e Fogo. Dany enfrentará Euron e Jon enfrentará o Mindinho, mas o foco provavelmente vai ser na finalização do arco da Cersei. Bran pode terminar entrando na muralha, liberando o inverno e sua revelação sobre Jon terminar o conflito entre os Stark. Por último temos Sam, que também não está a toa, algo de seu estudo pode ser a chave para fechar a trama. Ou isso, ou ele está escrevendo suas aventuras lá e de volta outra vez.

Samwise Gamgee

Att,
Felipe Cauville

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