Guerra Civil

Esse ano foi lançado o filme que muitos estão tratando como o melhor filme de super-herói até hoje, Capitão América 3: Guerra Civil. Da até pra entender o contexto considerando o cinema atual, com o Universo Cinematográfico Marvel (UCM) da Disney – que agora inclui os filmes do Homem-Aranha pela Sony –, o Universo Estendido da DC e os X-Men, Deadpool e Quarteto Fantástico da Fox. Ou seja, ignorando filmes como Batman: O Cavaleiro das Trevas, Homem-Aranha 2 ou até mesmo filmes da própria franquia, como Homem de Ferro e Guardiões da Galáxia, podemos concordar que é um dos melhores.

Mas mesmo assim, uma nota 90% no Rotten Tomatoes e 8,3 no IMDb ainda parece um pouco exagerado para esse filme. Podemos argumentar que notas são irrelevantes, usar o Rotten Tomatoes dessa forma é simplificar demais o sistema e que devemos ler as críticas e entender a posição dos críticos e fãs.

É aí que a estranheza surge. Quem está entretido e envolvido pelo UCM, está ganhando exatamente o tipo de filme que quer / foi condicionado a querer, afinal, Guerra Civil é o 13º filme da Marvel. Os outros 12 da franquia – e os da concorrência – construíram a forma e a expectativa dos fãs assistirem e dos produtores, diretores e roteiristas criar. Basicamente é o mesmo fenômeno que explica como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (conhecida também como “O Oscar”) premiou Annie Hall no lugar Star Wars em 77, ou Carruagens de Fogo no lugar de Indiana Jones em 81.

O que há de errado

Meu objetivo é fugir da discussão entre amigos “gostei disso, não gostei daquilo” e explicar exatamente o que vejo de errado e como o filme não se sustenta. Obviamente, este post contém spoilers.

Incoerência é a palavra chave aqui. Teoricamente o filme é sobre como os heróis devem lidar com os danos que causam ao mundo, mesmo que sejam apenas consequências dos seus nobres atos. O resultado é a divisão entre os membros dos Vingadores em 2 times, liderados por Capitão América e Homem de Ferro, pois há discordância sobre como prosseguir.

A base do roteiro é Guerra Civil, de Mark Millar, um evento que ocorreu em quase todos os quadrinhos da Marvel. A diferença é clara e muitos que não gostaram do filme baseiam-se nisso em suas críticas ao roteiro, porém a magnitude do que ocorre nas histórias em quadrinho é incomparável ao universo cinematográfico e, até por questões de direitos autorais, é impossível adaptar Guerra Civil precisamente. Os problemas são maiores que esse.

Começando pelo mais comum em todos os filmes do UCM: a incapacidade ou proibição de ter um clima mais pesado nos filmes. Ter piadas em um filme de heróis de quadrinhos é necessário, faz parte da mídia e transfere muito bem pro cinema. Quando colocar as piadas é o problema. Qualquer tipo de drama ou cena de ação com mais conteúdo ou tensão, são interrompidos ou finalizados com alguma forma de piada. Basicamente, existe uma regra de manter o filme raso e de fácil digestão.

No caso de Guerra Civil, a grande cena do aeroporto é inundada de piadas, a ponto de tirar o sentido dos personagens estranharem e reclamarem do quanto o Homem-Aranha fala durante a luta – que em si, já é mais uma piada. Além de cenas como o beijo entre Steve Rogers e Sharon Carter finalizado com piada ou a aparição de Stan Lee no final do filme quebrando dois momentos mais dramáticos.

Vingadores: Era de Ultron, que embora ainda raso, teve piadas mais inteligentes e sutis e momentos dramáticos respeitados. É um dos filmes do MCU que os fãs não gostam. O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, embora muito problemático, é constantemente criticado pelas cenas dramáticas e românticas longas, o que são tecnicamente as partes decentes do filme, com as excelentes atuações entre Andrew Garfield e Emma Stone. Entre outros exemplos, esses corroboram a ideia do roteiro feito sob medida e a expectativa dos fãs.

Outro problema do filme é a incoerência e desrespeito aos personagens apresentados nos últimos 12 filmes. Deveria ser o contrário, os personagens com aparições anteriores já tem desenvolvimento e facilita seguir pelo que conhecemos. No lugar disso, os melhores momentos do filme são justamente do Pantera Negra e Homem-Aranha, ambos apresentados nesse filme.

Scott Lang, o Homem Formiga, entra no time do Capitão América e é explicitado que agora ele é considerado um criminoso, quando o arco de seu personagem no próprio filme foi de deixar de ser fora-da-lei e poder ficar com sua filha. Aceitamos a cena dele sendo recrutado dessa forma pois focamos apenas na ideia dele já ter sido criminoso e está acostumado com isso. O clima leve e raso do roteiro, fazendo desse momento mais uma piada, nos ajuda a aceitar.

A Feiticeira Escarlate têm uma redução significativa de poderes e sotaque. Nada de manipulação mental, que seria bem útil, e o pouco que sobrou dos seus poderes são descontrolados e causam um dos eventos que motiva a separação dos Vingadores.

Time do Capitão correndo para atacar, por algum motivo, o Gavião também está correndo.

Exemplos pequenos de má construção de personagem também existem, como a escolha do Steve Rogers – um homem que lutou a segunda guerra na linha de frente – de usar um Fusca – o carro financiado por Hitler e usado exclusivamente pela Alemanha na época em que Rogers viveu –;
Ou colocar o Gavião Arqueiro, alguém que ataca a distância, para correr contra o outro time, só pelos 2 segundos de cena pro trailer. Assim que há o corte de câmera, ele para de correr.
Embora detalhes microscópicos, são elementos que indicam preferência para piada do carro pequeno ou cena falsamente épica, ignorando a complexidade dos personagens.

As outras inconsistências conversam diretamente com o roteiro que, por sinal, tem um elemento muito interessante, seu objetivo e sua virtude são contraditórias. Com o personagem principal e o que está do “lado certo” da discussão sendo o Steve Rogers, o desenvolvimento e lições maiores vêm das cenas com Tony Stark. Enquanto todas as cenas do Capitão América se resumem “resolver a situação com socos”.

O argumento que tentou ser passado era bem óbvio, os incidentes e danos existiram, mas graças a atitude dos Vingadores, eles foram minimizados. Os filmes anteriores tinham cenas dedicadas ao resgate de civis. Os problemas que ocorreram foram uma invasão alienígena, um monstro robô criado por Tony Stark e o ataque da Hydra, por meio de uma infiltração em agências privadas e governamentais. Fatos todos que dão razão à Steve Rogers, mas que praticamente não foram mencionados no filme. Quando havia argumentação por parte dele, resumia em não confiar em outro grupo e seguir a própria noção de justiça, ou seja, um foco egocêntrico nos argumentos. Isso é ainda mais estranho quando o Homem de Ferro dá uma chance ao time de Rogers logo após receber uma lição de moral da Viúva Negra: “não consegue olhar além do próprio ego?”.

O ponto de vista do Tony Stark e companheiros eram sobre a segurança do povo, mostrando uma mulher que perdeu o filho, o vilão que perdeu a família e o próprio Pantera Negra que perdeu o pai em acontecimentos com a presença dos Vingadores. Ou seja, o argumento repetido pelo Visão de “proteger o bem maior” era sempre lembrado ao público. Vale tomar nota que Tony é motivado pela culpa da morte de uma criança e ainda assim alista o Homem-Aranha mais novo do cinema para lutar.

E falando em Visão, além da estranheza do Capitão América e Viúva Negra não compartilharem nem com os Vingadores os dados da Hydra que descobriram em Capitão América 2: O Soldado Invernal – que é quando Rogers aprende sobre a morte dos pais do Stark–, o Visão não obter essa informação em sua criação tira bastante o sentido da disputa final do filme.

O que nos traz ao grande problema: o plano do vilão faz com que todo o lado do Capitão América estar errado. As disputas e defender o Bucky, tudo para impedir que Zemo acordasse os outros soldados, mas ao chegar lá, todos mortos. O objetivo de Zemo era dividir os Vingadores e graças a quem houve essa divisão? A necessidade de Rogers de resolver a situação com socos. Homem de Ferro, cuja posição estava correta, vai ajudar e toma a revelação de que Bucky matou seus pais e que o Capitão já sabia e não contou.

É difícil aceitar que Tony Stark não entenderia que Bucky estava sendo mentalmente manipulado, mas o roteiro insiste em mostrar que a culpa ainda assim é dele. Desde a conversa de Tony com Peter Parker onde temos a nova versão do discurso “grandes poderes, grandes responsabilidades” como “quando você pode fazer as coisas que eu faço, e deixa de fazer, a culpa ainda é sua” até a resposta clara de Bucky ao Tony quando questionado se lembra do que fez com seus pais: “eu lembro de tudo.”

Não só isso, mesmo após a luta ainda há a insistência de Bucky quando Rogers ainda defendendo-o diz “não era você, não teve escolha” com a resposta sendo “eu sei, mas eu fiz”. Ou seja, repetidamente o filme quer te dizer que o Bucky era culpado, justificando todas as ações do Tony Stark.

E o filme termina com o acordo governamental assinado pelo time do Stark, com o Capitão América libertando da prisão o seu time e Bucky é congelado novamente. Além disso, embora criminoso e foragido, Steve Rogers deixa avisado para Stark que se ele precisar de ajuda, é só chamar. Em outras palavras, os 2 terços finais do filme não influenciaram em nada a história.

A lição final tirada do filme é que se você se considera fazendo o que é certo, você pode infringir leis, mentir e brigar fisicamente com seus amigos e policiais, porque é isso que vai resolver seus problemas. Conversar e argumentar é irrelevante.

Batman Vs Superman – A Origem da Justiça

Batman encarando Superman

Com 27% no Rotten Tomatoes, o filme da concorrente DC, lançado um mês antes, foi massacrado criticamente e, embora eu veja como outro exagero para o lado negativo, concordo que é um filme muito fraco, cheio de furos e inconsistências.

Meu objetivo não é defender o filme da DC, é mostrar que Guerra Civil tem problemas equivalentes, o que mostra incoerência em muitas críticas. As semelhanças entre eles são muitas e claras e quando comparamos 2 coisas parecidas onde gostamos mais de um que do outro podemos aumentar a intensidade das opiniões que temos por cada um.

Você pode achar Oreo muito melhor que Negresco ou Burger King muito melhor que McDonald’s, mas, honestamente, são tão diferentes assim a ponto de quando comparamos ao universo de todos os biscoitos ou fast foods, a nota que receberão será 90 e 27%?

Ambos os filmes têm um vilão cujo objetivo é colocar os 2 protagonistas para brigar e as motivações ocorrem independente das ações dele – inclusive, lutas em que uma começa e outra termina por causa dos pais de um dos heróis;

Ambos têm um roteiro confuso que mistura diversas histórias separadas cuja união só serve para uma cena de luta entre os protagonistas;

Os dois apresentam personagens novos sem se preocupar com origem, que foram muito bem recebidos pelos fãs. Inclusive, esses momentos são constantemente considerados os pontos altos dos filmes – e que tal a coincidência de dois desses novos heróis aparecem de escudo assim que vestem seu uniforme?

Além da direção objetivamente superior dos irmãos Russo em Guerra Civil comparada à de Zack Snyder em Batman Vs Superman, principalmente quando estamos focando em história e não visual, um elemento aliado a melhor avaliação do filme da Marvel é justamente seu roteiro raso, que não se leva tão a sério como o filme da DC.

As consequências de um filme leve são facilmente ignoradas e a tentativa forçada e exagerada de Batman vs Superman de ter uma história séria e sombria, tornam seus defeitos muito mais evidenciados, mesmo que sejam muito semelhantes aos de Guerra Civil.

E o que poderia ser feito para melhorar?

Não quero apenas criticar o filme, gostaria de sugerir algumas pequenas mudanças de roteiro que seriam suficiente para tirar esses conceitos confusos e contraditórios. Não quero reescrever o roteiro e nem mudar como a história termina. É puramente um pequeno exercício para mostrar que não é preciso muito para melhorar uma aventura – ou simplesmente mudar, caso você não concorde comigo.

Facilitando nossa vida, o filme praticamente mantém seu Status Quo do início ao fim, as grandes diferenças, como dito anteriormente, é que metade dos Vingadores são foragidos (o que é efetivamente irrelevante para continuações, dado discurso final de Rogers) e que o tratado foi assinado.

Vamos focar na justificativa. Uma boa ideia poderia ser aproximar mais aos quadrinhos e colocar em Tony Stark características mais fascistas, porém, no ponto de vista comercial, ter seu melhor ator e um dos grandes responsáveis pelo sucesso de seus filmes transformado tão bruscamente, principalmente quando seu arco é um dos melhores construídos, considerando os filmes anteriores.

No lugar disso, vamos aproveitar a diferença entre Stark e Rogers que já vimos antes.

Colocamos o Capitão América para argumentar, mostrar que não é só o que ele acha certo e pronto. Seus atos sempre foram para o bem maior. Sob o controle de outra organização, sempre tiveram problema, Tony Stark já errou diversas vezes e errou feio em Ultron, mostre que ele mais uma vez quer acabar com a guerra antes da hora.

Embora eu tenha dito que o objetivo da história é mostrar as opiniões divergentes entre os membros dos Vingadores, o grande momento do filme é a luta entre os heróis. Resolver tudo de forma verbal num filme de ação não faz sentido.

Se o objetivo é ter briga, coloque quem deve estar errado para atacar primeiro. Obedeça ou sofra as consequências. Mostre que a solução proposta por Stark tira até a liberdade dos outros heróis. Homem de Ferro tem armas letais, Capitão América tem um escudo. No filme, toda a parte agressiva vem do lado do Capitão América, inverta. Quem deveria pedir a evacuação do aeroporto é o time de Rogers e seus objetivos deveriam ser se defender.

Capitão América se defendendo de um ataque do Homem de Ferro

Visão seria o único não agressivo do time do Homem de Ferro, pois sua filosofia estaria numa pura lógica, estilo Spock, dando valor a suas cenas com a Feiticeira Escarlate. Falando nela, sua redução de poderes seria simplesmente por estar focando em defesa e não em ataque.

A posição do Homem-formiga tem que ser mais clara. Ele confia no Capitão América e com os argumentos mais explícitos, mostra que ele além de não ser mais criminoso, ainda se tornou um herói que luta contra a injustiça que há no sistema.

Os outros se ajustam naturalmente, sendo soldados como Falcão, Máquina de Combate e Viúva Negra (que deve manter sua troca de lado), ou ingênuos, como Homem-Aranha e Pantera Negra, no caso, movido pela vingança – atitude que fortalece a disputa final.

Porém, o mais importante: faça o Capitão estar correto.

Eles já estão brigando, não há necessidade disso ser o plano do vilão. Reviva alguns dos Soldados Invernais para lutar contra Bucky e o Capitão, quando o Homem de Ferro chegar, não só revele o assassinato de seus pais, mas faça Bucky perder o controle uma última vez – o que cria tensão e dá importância a todas as cenas anteriores, unindo os dois arcos que formam o filme, o do Capitão protegendo Bucky e dos Vingadores se estranhando. Bucky já tem um meio de se tornar mal com as palavras-chave, não existe necessidade de faze-lo tão agressivo quando consciente com os policiais ou cruel com Stark, como ele é mostrado nessas cenas.

Com essa motivação final, temos uma luta mais emocionante com Tony sendo egoísta e descontrolado, Bucky perigoso e também descontrolado e apenas o Capitão América, símbolo do filme, que deve carregar a justiça, impedindo os dois de se matar.

Uma vez sob controle, Bucky reconhece o quanto ainda é perigoso, justificando se congelar por vontade própria. Com o contrato assinado, o ato criminoso de Rogers de soltar os Vingadores, torna-se heróico, pois foram presos injustamente. Se não foram eles que começaram a briga, mostra ainda mais que o sistema está errado.

O clima do filme poderia se manter, ainda sem se aprofundar em dramas e com piadas. Embora sejam pontos de minha crítica, é um dos grandes fatores de sucesso, como dito anteriormente.

Nota?

Minha conclusão é simples: Mesmo não considerando um filme nota 9, não é preciso muito para que ele deixe de ser apenas mais um filme de herói entre tantos outros.

Atenciosamente,
Felipe Cauville

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